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Das ruas à galeria

O grafite chegou a Paris como parte de uma cultura marginalizada e hoje é uma arte que conquista espaços nobres da capital francesa e do mundo

Texto: Letícia Constant

foto:
Desde a década de 1960, as ruas parisienses já abrigavam grafites. Abaixo, obra do grafiteiro Teurk no Forge de Belleville
À primeira vista, faz lembrar o muralismo dos mexicanos José Clemente Orozco, Diego Rivera e David Siqueiros, que se destacaram na primeira metade do século passado. Não há como provar essa influência, mas é possível senti-la na eloquência da manifestação dos grafiteiros de Paris. A arte das ruas impregna alguns dos recantos mais charmosos da capital francesa e aqueles que já foram confundidos como vândalos hoje são considerados artistas influentes – alguns dos quais já ocupando lugares nobres em galerias sofisticadas, utilizando outros suportes mais convencionais.

Em Belleville, velho bairro da capital francesa, encontra-se um reduto da arte das ruas – e das artes em geral –, instalado em uma antiga usina da cidade: a Forje de Belleville (a forja de Belleville) é um grande espaço com vocação a demolição que persiste ao tempo e, assim como outros edifícios do bairro parisiense, sobrevive às transformações da cidade. Nos anos 80, os artistas de Paris começaram a se instalar nessa região em busca de aluguéis baratos, espaços amplos e o charme das pequenas ruelas, já que Belleville foi poupada da modernização e da restauração ocorrida em Paris nas décadas de 60 e 70.

Os muros parisienses já exibiam desenhos nos anos 60, sob a influência do movimento urbano hip hop em Nova York – uma cultura de periferia, originária dos guetos americanos, que se expressa na música pelo rap, na dança, pelo break, e nas artes pelo grafite. A rua é o cenário perfeito para essas manifestações, tratadas, desde o início, como marginais e rebeldes.

No rastro desse movimento, a Forje de Belleville surgiu em 1991. A velha usina estava destina a virar um shopping quando um grupo de artistas resolveu ocupar ilegalmente o prédio, forçando o conselho municipal a repensar sua decisão. Assim, os artistas conseguiram permissão para ficar e lá estão já há quase 20 anos – agora como residentes legais, pagando aluguel, inclusive.

As décadas anteriores, notadamente as de 1980 e 1990, haviam sido marcadas pela subversão, pelas ações noturnas e furtivas, pelas escaladas inimagináveis em prédios altíssimos para tentar eternizar assinaturas, pelas perseguições e, é claro, pelos muitos grafiteiros atrás das grades. No ano 2000, a prefeitura de Paris decidiu “limpar” a capital e contratou uma empresa especializada em apagar grafites.

Seria um exagero dizer que hoje os grafites são permitidos na cidade, mas são muito tolerados, especialmente quando valorizam ou complementam elementos urbanos como postes, extintores de incêndio e até caminhões. Essa interação é a tendência atual do grafite na capital francesa, que reflete a absorção da arte de rua pelos habitantes e até mesmo pelas autoridades locais. Esse novo contexto é fundamental para que as obras permaneçam.

Quando a visão sobre os grafites começou a mudar e essa arte passou a ser mais aceita, os antes tratados como vândalos passaram a ser considerados verdadeiros artistas, convidados para expor em museus e ruas do mundo inteiro. Muitos outros grafiteiros foram elevados à posição de artistas consagrados, como os brasileiros osgemeos e Nunca – que pintaram a fachada da Tate Modern Gallery, de Londres, em 2008 – e Cripta – que desenhou a fachada da Fundação Cartier de Paris para a exposição Né dans la Rue – Grafiti (Nascido na Rua – Grafite) em 2009.

Energia selvagem
L’Atlas começou a grafitar no início dos anos 90, “com uma energia selvagem que durou alguns anos”, segundo sua própria descrição. Ao longo do tempo, seu estilo foi se modificando sob a influência, principalmente, da caligrafia kufi ­– geométrica, a grafia árabe mistura desenho com escrita e contém, de acordo L’Atlas, uma “energia mais zen”. Dessa inspiração, nasceu a assinatura do grafiteiro (ao lado), que o tornou famoso.

Em comum com muitos outros representantes dessa arte de rua, L’Atlas tem a paixão por viagens. Ele estava justamente no Brasil, no Rio de Janeiro, quando escolheu seu apelido artístico. O grafiteiro morou na cidade durante um ano, no bairro Santa Teresa, tradicional reduto dos ateliês de artistas plásticos cariocas. “Fui muito influenciado pelas pichações brasileiras”, confessa.

Em 2008, foi no bairro da Lapa que ele realizou sua performance-viajante, chamada Telas Errantes, em que colocou sete quadros com seu nome na rua e esperou as reações. “No Brasil, foi incrível. As pessoas são abertas, logo perguntavam o que eu estava fazendo, queriam tirar fotografia ao lado dos quadros. Entraram na hora na minha história”, ele lembra, sorrindo.

Em Paris, bússolas nas calçadas e praças feitas com fitas adesivas, além das famosas placas de esgoto prateadas, são os seus trabalhos mais consagrados e que representam maior interação com a cidade.

Na Forge de Belleville, L’Atlas não só trabalha como vive, com sua mulher – a filósofa e fotógrafa Manon – e sua filha, Inna, que ainda nem completou 1 ano. Sem ter uma religião definida, o grafiteiro se inspira no taoismo como filosofia de vida para estar sempre “à procura da perfeição por meio da eterna repetição”.

À beira do rio Sena
O parisiense Tanc, romântico e nostálgico, também tem um ateliê na Forje de Belleville, mas mora no bairro Pigalle, que não troca por nenhum outro. “É um bairro intenso, que vive a noite.” Aos 10 anos de idade, Tanc descobriu e se encantou com os grafites do metrô e dos muros à beira do rio Sena. A paixão pela pintura veio com toda a força. Ele começou a grafitar desenhos grandes e coloridos pelos muros e depois passou a fazer sua assinatura por toda a cidade. “Entendi que o grafite é efêmero, por isso, deixar minha assinatura era algo mais rápido, menos elaborado e bem interessante.” No ano 2000, enquanto a prefeitura de Paris eliminava os grafites das suas ruas, Tanc começava a pintar quadros e realizava suas primeiras exposições.

No caso de Tanc, a dedicação do artista voltou-se para a própria assinatura, que ele começou a trabalhar até torná-la abstrata. “Todos os grafiteiros são especialmente narcisistas”, ele reflete. A outra grande paixão de Tanc é compor música eletrônica – “tenho um monte de máquinas” – e hoje ele integra essa arte à sua pintura – “cada som é uma cor e cada nota é um traço”.

Pintura e escrita
Alto, cabeleira loira cacheada, ansioso, sempre com um cigarro entre os dedos, Sun7 é outro grafiteiro parisiense. “Trabalhei a noite inteira”, justifica seu ar cansado. Ele começou a desenhar quando era criança e depois, na adolescência, descobriu os muros. Atualmente tem um ateliê, mas ainda sai para fazer grafites nas ruas de Paris.

“Hoje me considero mais pintor do que artista de rua, misturo pintura e escrita”, diz. Suas superfícies prediletas são o aço, o vidro e o espelho. Suas cores oscilam entre o vermelho e o negro, o forte e o fraco, o dourado e o prateado. Na entrada da Forge de Belleville, um grande grafite assinado por Sun7 reflete a sua personalidade: contrastes de cores fortes, como o verde e o preto, dois rostos iguais, um alegre e outro com a expressão fechada. “Também sou assim, up and down.” Sun7 passa a maior do tempo no ateliê, mas, como quase todos os artistas de rua, gosta de viajar. “Ainda não fui ao Brasil, mas um dia vou”, ele diz, se levantando pela quinta vez para procurar o isqueiro.

A indecifrável Tic
Misteriosa, ela é a única estrela feminina da constelação dos artistas de rua de Paris. Nascida em 1956, no bairro pitoresco de Butte aux Cailles, Miss.Tic se considera uma tatuadora de cidades. No meio dos anos 1980, utilizando a técnica do estêncil (desenhos delineados por corte em papelão e impressos nos muros), ela começou a imprimir suas imagens provocantes de mulheres fatais, sempre acompanhadas por um jogo de palavras sensual, engraçado, politizado e atrevido como “Libertine sans liberté” (Libertina sem liberdade, em tradução livre).

A partir de 1986, a sorte sorriu para ela: foi descoberta pelo Victoria and Albert Museum, de Londres, que a convidou para uma mostra individual. Daí para o seu reconhecimento, foi um pulo – exposições na França, obras compradas pelo Fundo de Arte Contemporânea de Paris, desenhos para grifes de luxo como Louis Vuitton e Kenzo, criação de cenários para teatro e cinema.

Mas o que mais intriga em Miss.Tic é a própria Miss.Tic. Tipo “mignon”, roupas sofisticadas, um copo de vinho na mão e um sorriso indecifrável, ela circula em torno do seu próprio mito. Seria mentira dizer que é inacessível, mas são poucos os que conseguem se aproximar – “prefiro falar do meu trabalho do que de mim, entende?”. Miss.Tic reconhece que hoje sua obra faz parte da história do urbanismo de Paris, principalmente no seu bairro, Butte aux Cailles, onde seus desenhos reinam em vários muros. Desenhos ousados e poéticos, como a dona das mãos que os criaram.

EXCLUSIVO ONLINE

Conheça a história do graffiti em São Paulo e as experiências de alguns artistas, como Maurício Kuhlmann, o MZK.



Entrevista e imagens de obras do artista Conrado Zanotto (www.rua.art.br/conconcon)

1) Como você teve contato com o grafite?

Conrado Zanotto: Comecei a pintar com um amigo, em Ourinhos, interior de São Paulo, quando tinha 14 anos. Desde aquela época até quando me mudei para São Paulo, fazia uns rabiscos na rua. Quando terminei a faculdade, entrei em contato com alguns artistas que me incentivaram a voltar a pintar. Ao perceber que o grafite, a arte de rua, era o tipo de arte que mais se associava ao que eu estudava, resolvi voltar.

2) O que tornou o grafite seu foco?

Conrado Zanotto: Aos poucos venho transformando o grafite no meu trabalho principal. Mas o mais gostoso nesse tipo de arte é a diversão na hora de fazer. Torna-se muito prazeroso. Você vai pra rua, faz uma peça, geralmente uma peça grande, o que se torna bem diferente de trabalhar em um estúdio. Na rua, você ultrapassa o limite do suporte. A cidade passa a ser o suporte e isso é algo muito bacana. E em São Paulo, temos uma produção muito boa e artistas produzindo a nível internacional.

3) A interação do grafite com o meio urbano ocorre de que maneira na sua concepção?

Conrado Zanotto: Total, o grafite só se caracteriza como grafite por estar fora de um lugar fechado. Ele é outdoor, está no mundo, na cidade, interage com mofo, com bolor, com rachadura, com janela, com porta e com prédio. Isso é a interação do meio urbano e ela é fundamental para o desenvolvimento da arte em si. Não ocorre somente na megalópole, mas em qualquer lugar, qualquer casinha.

foto: Conrado Zanotto
Obra do artista Conrado Zanotto


foto: Conrado Zanotto
Obra do artista Conrado Zanotto


foto: Conrado Zanotto
Obra do artista Conrado Zanotto


foto: Conrado Zanotto
Obra do artista Conrado Zanotto


foto: Conrado Zanotto
Obra do artista Conrado Zanotto


foto: Conrado Zanotto
Obra do artista Conrado Zanotto

 

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