O grande esporte da paz
A bola no pé e o gol por fazer: a linguagem do futebol está acima de religiões e ideologias
Texto: Carlos Moraes
O futebol só foi se definir e se organizar na Inglaterra ali pelo século 18. Mas o fato é que, de um jeito ou de outro, com regras ou sem regras, a humanidade sempre bateu uma bolinha. Nas mais diferentes épocas e culturas. Pinturas rupestres da Nova Guiné já registram seres humanos pulando em torno de uma figura arredondada que tinha tudo para ser uma bola.
O pé e a bola eram obrigatórios, o mais variava muito, a começar pelo nome. Na China o futebol era o tsu-chu (golpear com o pé), no Japão chegou como kemari (chutar bola), o gregos cultivavam o epichiros, os romanos praticavam o herpastum, os gauleses eram chegados ao soule com bola de serragem e os italianos, há séculos, são adeptos do calcio, ou coice. Consta que, em 1488, o grande Leonardo da Vinci era visto fazendo estudos de anatomia diante de um furioso cálcio jogado entre Brancos e Verdes, 25 para cada lado, na Piazza Santa Croce, em Florença.
Essas peladas podiam ter um pouco de rugby, de handebol ou de simples batalha campal, mas deram a volta ao planeta. Inclusive nas Américas. Da Patagônia ao Canadá, os primeiros cronistas do Novo Mundo registraram alguma prática de jogo com bola. Mais: é dado como certo que foi entre índios brasileiros que nasceu a bola de borracha.
O fato é que o futebol se universalizou, democratizou-se como nenhuma outra forma de lazer e seu reino primordial é a “pelada”, o futebol de rua, a várzea.
Soa forte, mais quem prova isso?
Um fotógrafo brasileiro, Caio Vilela.
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| Vigias de um templo budista jogam bola ao entardecer sobre a planície de Bagan, Mianmar |
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Há cinco anos, Vilela vem registrando peladas de rua ao redor do mundo, feito que já inclui mais de 30 países. Em suas andanças, viu a bola correr nas mais diferentes situações. Entre feras do Parque Kruger, na África do Sul, entre meninos pelados à beira de um rio num vale da China. Junto à Catedral de Santiago de Campostela, na Espanha, à sombra do vulcão mais alto do mundo, o Cotopaxi, no Equador, em meio à neve na estação russa, nos ermos gelados da Antártida. No pátio de um monastério budista no Nepal, em cima da muralha da China, junto à pirâmide de Gizé, no Egito, e num ponto de táxi de elefantes, na Tailândia. Entre bichos exóticos das Ilhas Galápagos, à sombra do Monument Valley nos Estados Unidos, e entre ruínas romanas na Tunísia. Numa praça de Montevidéu e no estádio do Boca, em Buenos Aires. O futebol, e o esporte em geral, fala uma linguagem que todos entendem, a todos encanta acima de religiões e ideologias. Quando, durante a Olimpíada de 1936, Hitler se retirava do estádio para não ver um corredor negro, Jesse Owens, ganhar uma medalha de outro, seu derrotado concorrente alemão foi honesta e alegremente abraçar o vencedor.
Nelson Mandela, o grande libertador e reconciliador da África, e hoje uma das maiores autoridades morais do mundo, tem uma frase muito intrigante a respeito: “A arte e o esporte têm o poder de mudar o mundo, o poder de inspirar, o poder de unir pessoas como poucos conseguiram. A arte e o esporte podem criar esperança onde antes só havia desespero. São instrumentos de paz muito mais poderosos do que governos”.
No belo filme de Clint Eastwood, Invictus, essa visão de Mandela é posta em prática quando ele, já presidente, vale-se de um Mundial de Rugby para unir negros e brancos em torno da seleção nacional.
União pelo futebol
Há outros bons exemplos desse papel confraternizador do esporte pelo mundo afora. E o futebol está no centro de muitos deles. 2010 é ano de Copa e uma Copa do Mundo tem essa capacidade de unir povos – também internamente. Em 1998, a França ganhou a Copa com uma seleção absolutamente mutirracial. Nela atuavam jogadores de origem portuguesa, senegalesa, armênia, polinésia, argelina, basca...Em 2004, a Copa veio a ser para a Alemanha a primeira grande festa da unificação nacional.
Outro exemplo do poder pacificador do futebol foi quando, em 2007, o Iraque venceu a Copa da Ásia, que foi disputada em Jacarta, na Indonésia. Na época, uma entrevista do técnico do Iraque, o brasileiro Jorvan Vieira, deveria fazer refletir líderes políticos e religiosos. Ele contou que sua maior dificuldade foi fazer um xiita passar a bola para um sunita e um sunita para um curdo. No que o time se uniu, foi lá e ganhou a Copa.
Na conturbada Faixa de Gaza, um projeto, coordenado pelo Centro Shimon Peres, reúne 1.600 crianças árabes e israelenses para que se conheçam melhor – jogando futebol. As próprias crianças reconhecem que essa é a melhor maneira de fazer amigos do outro lado da fronteira. Nelson Mandela costuma dizer que ninguém nasce odiando o outro pela crença ou cor da pele. E que se é possível aprender o odiar, é possível também aprender a amar.
No Nepal o esporte mais popular é o críquete e o futebol é meio coisa de menina, que são, aliás, boas de bola. Em Mianmar, antiga Birmânia, onde futebol se diz “balunga”, os homens jogam, mas, para chegar à seleção, só com padrinho político. Resultado: não ganham de ninguém. Já as mulheres adoram futebol e, longe da cartolagem política, só se firmam pelo talento mesmo. Resultado: foram duas vezes campeãs asiáticas.
Já no Iêmen, um dos países mais pobres do Oriente Médio, terra de guerrilheiros e insurgentes, o futebol é a alegria do povo. Da molecada, principalmente, e lá é o que não falta: 60% da população tem menos de 15 anos. Haja bola: só num rio seco, Vilela contou mais de 20 campos e todos ocupados!
Em Abadan, no Irã, na fronteira como Iraque, entre dois rios lendários, o Tigre e o Eufrates, ele encontrou uma seleção brasileira. É que, desde a Copa de 70, o time local adotou o uniforme da seleção canarinho e até hoje se mantém fiel. A ponto de adotar rapidamente a mínima mudança no design.
Num mundo repleto de preconceitos, é bom saber que a bola não para de rolar acima da ideologia e da fé. Que de calção, saia, saiote, turbante, batina católica, hábito budista e até sem roupa nenhuma, a bola rola, o jogo é jogado.
Quando, em fevereiro de 2008, o escritor francês Michel Houellebecq esteve no Brasil para o evento Fronteiras do Pensamento, fez esta reflexão valiosa sobre ser humano, violência e instinto de combate: “O homem adora o combate, seu lado animal se satisfaz nas revoluções e nas guerras. Hoje, com as guerras reduzidas ao campo econômico, como encontrar um canal de escoamento para esse desejo de violência? Parece-me que este canal foi descoberto e obtém um sucesso no conjunto do planeta. É o futebol! O futebol permite uma liberação de adrenalina real, embora menos poderosa que a do combate físico efetivo. Oferece um suspense claramente mais forte que o de qualquer produção de cinema imaginável, enquanto a guerra real, na maioria das vezes, logo se torna relativamente entediante. O futebol permite a reconstituição da identidade nacional lúdica, porque temporária e facultativa, e bem pode dissipar as identidades nacionais que antes serviam para iniciar e conduzir guerras”. Já na Grécia antiga, as guerras deviam ser suspensas durante a Olimpíada. Era a trégua sagrada.
Essa bola toda que Caio Vilela flagra rolando ao redor do mundo é, pois, um motivo de esperança para os que buscam a paz entre os povos. Ou, como dizia outro Nelson, o Rodrigues: “O pior cego é que só vê a bola”.
Futebol pode ser muito mais.
Um embaixador ruim de embaixadas
Paulistano, formado em geografia pela USP, Caio Vilela foi guia turístico e, meio por acaso, começou a fotografar animais, rios e árvores que ia mostrando aos seus grupos. Em 1995, com muitas ideias na cabeça e, no bolso, US$ 10 mil duramente economizados, começou suas viagens, por conta ou encomenda. Um dia, lá estava ele visitando monumentos históricos de uma cidade sagrada do Irã, Yazd, berço do zoroastrismo, quando ouviu, entre aquelas cúpulas e muros sacrossantos, um som muito brasileiro, terreno e inconfundível. Foi-se aproximando e não deu outra: era uma “pelada” bem ali, à sombra da arte e da história. A foto ficou bonita e foi como que uma iluminação: por que não fotografar “peladas” aos redor do mundo? Não parou mais. Foi descobrindo que a bola e as regras são mais ou menos as mesmas no mundo inteiro, mas que cada povo tem lá o seu jeito de jogar.
O livro Futebol Sem Fronteiras (Editora Original, 2009) reúne parte das fotos produzidas nessas viagens. E o negócio dele é mesmo fotografar. Em Abadan, Vilela foi tratado como se fosse Pelé e lhe passaram a bola para fazer umas embaixadas. Aí a coisa se complicou. Futebol não é mesmo com ele.
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O geógrafo, jornalista e fotógrafo Caio Vilela realizou um sonho de infância: conhecer o mundo. Já viajou pelos quatro cantos do planeta, conheceu culturas exóticas e descobriu que o futebol está presente até nos lugares mais remotos. Vilela fotografou partidas disputadas em 26 países, desde o interior do Brasil até lugares inusitados como a Muralha da China, a Antártida, o deserto ao lado das pirâmides do Egito, as praias de Fiji. As imagens estão reunidas no livro Futebol Sem Fronteiras: Retratos da Bola ao Redor do Mundo. Para quem ainda duvida, uma prova da força do futebol brasileiro: a camisa da seleção brasileira faz sucesso até nas peladas no Vietnã e em Mianmar.
HG – Como surgiu a ideia do livro?
Caio Vilela – Há cerca de cinco anos comecei a fazer viagens de reportagem para cobrir diferentes temas. Um dia, estava no Irã e vi algumas crianças jogando futebol numa praça e achei legal fotografar. Foi quando tive a ideia e decidi registrar todas as peladas que eu encontrasse durante minhas viagens.
HG – Qual situação você achou mais curiosa?
Caio Vilela – De todos os lugares que conheci, o Iêmen é o que mais tem futebol de rua. Cerca de 60% da população do país tem menos de 15 anos. Enquanto os pais trabalham, as crianças ficam soltas nas ruas, jogando futebol. Em Mianmar, que vive sob uma ditadura militar, a população prefere o futebol feminino. É que a seleção masculina é formada por atletas “apadrinhados” pelo governo. Na feminina, jogam apenas as melhores atletas. E elas são boas, já ganharam vários campeonatos da Ásia.
HG – O futebol brasileiro é mesmo tão conhecido no mundo?
Caio Vilela – Todo mundo ama o futebol brasileiro. Em quase todos os lugares por onde passei as pessoas falavam sobre Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho e Kaká quando dizia que sou brasileiro. Foi muito bom para criar intimidade com as pessoas que queria fotografar. Alguns até me convidavam para jogar.
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