Editora Horizonte
 
 
EDIÇÃO 104

Terra de pinguins

Território isolado no sul do oceano Atlântico, a Geórgia do Sul é local de procriação de dezenas de espécies de aves, além de lobos e elefantes-marinhos

foto: Haroldo Palo Júnior
Milhares de pingüins-rei se aglomeram na ilha Georgia do Sul. É tempo de reprodução



Festival de aves

A travessia do Brasil até a Geórgia do Sul é uma expedição de 12 dias com encontros inesperados. Qual será a próxima ave a se aproximar do barco? Quantas oportunidades teremos para conseguir uma boa foto? Geralmente isso só acontece uma vez. O barco cavalga ondas de até três metros de altura e profundidade e essas aves voam a 70, 80 quilômetros por hora. Aves marinhas passam semanas no mar voando quase ininterruptamente. Albatrozes-errantes, as maiores aves voadoras do mundo, executam uma circunvolução antártica a cada nove meses. Seus primeiros cinco anos de vida são livres para voar, voar, voar… nunca pisam em terra firme. Mas essas aves não escapam da fase terrestre em suas vidas quando filhotes e dependem inteiramente dos pais para sobreviver. Na ilha, a infestação de ratos, introduzidos pelo caçadores de baleias, define onde as aves podem se reproduzir em segurança e onde é inevitável a morte dos filhotes. Mesmo para aqueles que fazem ninhos em buracos no chão.

foto: Haroldo Palo Júnior
Albatroz-cinza (Phoebetria palpebrata)


Fase de reprodução

Em dezembro, na baía de St. Andrews, na Geórgia do Sul, e os pingüins-rei iniciam mais uma fase reprodutiva. Esse processo leva um ano e meio para terminar, desde a postura do ovo até o filhote fazer a muda das penas e caçar no mar por conta própria. Esses pingüins vivem nas ilhas subantárticas do Atlântico e Índico e só na Geórgia do Sul somam mais de 800 mil indivíduos. Mas esse número vem diminuindo ano após ano. Estudos dos últimos 25 anos indicam um declínio de 15% na população da maioria das aves marinhas desses oceanos. O motivo? A competição por alimento com os barcos de pesca cada vez mais sofisticados. O quanto podemos lamentar sobre essa perda só dá para sentir quando andamos no meio deles pelas praias; sentindo seu cheiro, ouvindo seus cantos e observando seus gestos.

foto: Haroldo Palo Júnior
Pingüim-papua (Pygoscelis papua papua)


Creche de pingüins

Os pingüins-papua da Geórgia do Sul pertencem a uma subespécie exclusiva das ilhas subantárticas. Nesse local, eles somam 600 mil aves. Considerando que só existem nessas ilhas, correm um grande risco. Além dos ratos, os filhotes deixados pelos pais em creches enfrentam as gaivotas, skuas e petréis. Não têm para onde correr. O único jeito é se agrupar em círculo e fazer muito barulho para intimidar os predadores. E no mar? Existe algum perigo? Claro que sim: chama-se foca-leopardo. Uma única dessas focas pode comer 15 pingüins numa sessão de caça. E não precisa ser necessariamente da “marca” papua. Todos os pingüins são aceitos. Os riscos são grandes porque os pingüins passam mais tempo no mar do que em terra firme ou sobre algum bloco de gelo. Cada saída em busca de alimento pode levá-los a mais de 50 km da ilha por 10 a 12 horas. Mas esses encontros de arrepiar todas as penas acontecem mesmo nas proximidades da ilha. Exatamente nos corredores por onde passam esses milhares de pingüins nas suas saídas e retornos do mar. O filhote que ficar órfão de pai e mãe não sobreviverá.


História da ilha>

A ocupação da Geórgia é tão extraordinária quanto a sua origem. A ilha foi descoberta em 1675 pelo mercador londrino, Antoine de la Roche. James Cook passou por lá cem anos depois, mas somente no início do século passado a ilha foi realmente ocupada pelos humanos. Durante 65 anos, foram fundadas seis estações-fábricas para caça à baleia e focas. Foram capturadas e processadas 175.250 baleias nesse período. A maior baleia-azul já encontrada foi processada na baía de Gritviken. Media 33 metros de comprimento e pesava 150 toneladas. Hoje, as raras baleias vistas por lá estão sempre de passagem. Pesquisadores escoceses estudando elefantes-marinhos obtiveram dados fantásticos sobre o que essas criaturas, de seis toneladas, fazem no mar. Um deles executou uma viagem de ida e volta à Península Antártica em seis meses e fez mergulhos de 45 minutos a profundidades de 1.200 metros. Como se isso só não bastasse, os intervalos entre esses invejáveis mergulhos eram de apenas dois minutos. Nas praias eles são “sacos de geléias” que se assustam até com pessoas.

foto: Haroldo Palo Júnior
Veleiro Paratii 2 próximo à geleira de Nordenskjold


Cenário antártico>

O que mais me encantou na Geórgia? Foi a paisagem. Depois de navegar 12 dias pelo Atlântico Sul sem ver ou sentir nenhum sinal de terra, a visão da ilha é espetacular. É como ter um pedaço da cordilheira dos Andes no meio do mar. Com apenas 40 quilômetros de largura, a ilha exibe picos com quase 3 mil metros de altura. Navegando o seu contorno encontra-se de tudo: geleiras, lagos, icebergs, encostas de rocha nua, montanhas permanentemente cobertas de gelo e neve, riachos, campos de gramíneas e musgos, rochas cobertas de líquens. E como surgiu isso tudo? Na separação dos continentes, quando a América do Sul migrou para oeste se afastando da África, ela deixou para trás a Geórgia do Sul. Se tivesse seguido viagem faria hoje parte da Terra do Fogo. Mas o que torna a ilha tão especial é o fato de estar dentro da área de convergência antártica que provoca fenômenos de ressurgência, tornando essa região extremamente rica em seres marinhos.


Onde ela se localiza
A Geórgia do Sul está situada a 1.280 quilômetros a sudeste das ilhas Malvinas, no sul do Atlântico. É um território pequeno, com 160 quilômetros de comprimento por 32 quilômetros de largura. Por suas condições especiais, dentro da área de convergência antártica, é local de grande concentração de animais marinhos -– daí a profusão de pingüins e outras aves, fotografados por Haroldo Palo Júnior, que esteve duas vezes na ilha, como parte da tripulação do barco Paratii 2, de Amyr Klink.
A ilha, onde existe uma pequena vila, constitui hoje uma possessão inglesa. Em 1982, foi ocupada pelos argentinos durante a guerra das Malvinas. (MSJF)

foto: Sirio Cançado

Publicado em 18/05/2007


 
 
 
 
 
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