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EDIÇÃO 3

Tuiuiú: a vida em família

Embalada pelo monótono ruído da composição sobre os trilhos, nossa conversa arrastava-se tão lentamente quanto o comboio que seguia rumo a Corumbá.

Mergulhados num estado de quase torpor, sequer percebíamos que as imagens do Pantanal invadiam nossa pequena cabine misturando-se às outras geradas pelas nossas dúvidas e esperanças acerca do destino desta região. No fundo, nós sentíamos saudades daquela família pantaneira que crescia.

“O Ricardo da fazenda Milagre deve estar nos esperando. Ele mãe falou que os filhotes estão a ponto de deixar o ninho”, disse Haroldo que, com estas palavras, tirou-me da inevitável sonolência causada pelo balanço do trem. Havia oito anos que observávamos a fauna do Pantanal e o Haroldo já era íntimo dos tuiuiús que iríamos reencontrar.

“Acho que o clã se cansou de sua câmera indiscreta”, retruquei. Não era por menos: esta seria a terceira vez que incursionávamos pela região este ano.

Mais um dia e estaríamos em Corumbá, de onde tomaríamos a barca Santa Laura que sobe o Taquari, chegando ao nosso destino em pleno inverno pantaneiro.

As águas, que durante o verão inundaram a imensa planície pantaneira, começam a vazar nos meses de julho e agosto, deixando no seu rastro inúmeras lagoas, corixos e vazantes ricas em vida aquática. Legando ao pantaneiro a benção de um solo enriquecido por nutrientes que se disseminaram na cheia. Chegamos em meados de julho, época de plena fartura no Pantanal. Esperávamos encontrar o clã feliz e bem alimentado.

Encontramos o casal arrumando seu ninho na velha piúva da fazenda do Ricardo. Os jaburus são proprietários desta casa há oito anos e cuidam dela periodicamente, reforçando-a com galhos e fibras e fazendo-a crescer a cada ano que passa.

“Só uma mansão destas poderia suportar a família dos tuiuiús”, comentou Haroldo, referindo-se ao enorme amontoado de ramos arrumados em forma circular numa das forquilhas da árvore. Medimos a estrutura que já contava com um diâmetro de mais de 2 m e uma espessura de quase 1,5 m.



Reencontrando o casal

Com um ninho dessas dimensões o tuiuiú pode se dar ao luxo de receber irriquietos inquilinos, pequenos periquitos conhecidos por caturritas, bastante comuns no Pantanal. Ao contrário de seus parentes maiores, as caturritas constroem seus ninhos com gravetos, aproveitando ocasionalmente a estrutura do ninho da outra ave.

Para alcançar o ninho de nossa família enfrentamos o tremendal do rio Taquari.

“Cuidado, Haroldo”, gritei. Ele estava tão ansioso por fotografar os filhotes com cinco semanas de vida que perdeu o equilíbrio e por pouco não desapareceu sob as águas. O nome tremendal é utilizado pelo pantaneiro para denominar um alagado que surge devido à mudança do leito dos rios no Pantanal. O rio taquari alterou seu curso e o antigo leito, ainda cheio de água, foi tomado pela vegetação aquática que, de tão emaranhada chega a dar suporte a uma caminhada e a sensação que temos ao caminhar é de estarmos andando por cima de um colchão d’água. O chão treme todo. Aconteceu que Haroldo, empolgado não percebeu que num trecho não havia essa vegetação e acabou afundando.

Esse deve ser um dos motivos que leva o jaburu a escolher uma grande árvore em meio a um alagado, pois, sem dúvida isso dificulta o acesso de eventuais predadores ao seu abrigo. Dessa forma a ave consegue também e reclusão necessária para procriar tranquilamente, livrando-se de intrusos.

Julho havia acabado, a vazante continuava e o ninho estava reformado.



Nas lagoas um cardápio farto

O regime hídrico de cheias e vazantes periódicas não é suficiente para fornecer ao Pantanal o volume de água que o caracteriza. Obedecendo a um ciclo de amplitude aproximada de quinze anos, pode ocorrer uma grande inundação como a de 1974 ou a de 1988 que, segundo consta, foi uma das maiores já registradas, superando a histórica cheia de 1905.

Estes ciclos periódicos, somados aos das grandes enchentes, permitem grande dispersão de peixes e organismos aquáticos, que no vazar das águas ficam retidos nas pequenas lagoas formadas pelas depressões naturais do terreno. É exatamente esta condição que permite a sobrevivência da exuberante avifauna pantaneira. As lagoas rasas e piscosas são responsáveis pelo cardápio oferecido às aves aquáticas, entre elas o tuiuiú.

Tal é a importância destas represas que encontramos espantosas concentrações de aves às suas margens em intensa e organizada pescaria coletiva.

O tuiuiú ao deparar-se com um destes lagos, deixa de lado sua característica instrospecção. Reúne-se em bandos numerosos e, juntamente com outras espécies de aves promove verdadeiros banquetes até o quase esgotamento dos peixes da lagoa. Desta orgia alimentar participam também seus parentes próximos, os cabeças-secas, que junto com garças e biguás fervilham nas águas.

No Pantanal de Nabileque, localizado no retiro Acurizal da fazenda Bodoquena, foram contados neste ano cerca de quinhentos tuiuiús pescando em um desses alagados. Um deles provavelmente seria o macho da família que estávamos acompanhando.

Na época da vazante, enquanto as águas abandonam as planícies, encontramos sempre os jaburus reunidos aos pares. Casais zelosos, já terminaram a reforma do ninho para acolher os filhotes que estão por vir.

A escalada até a forquilha da piúva não deixava de ser uma operação complicada. Haroldo esforçava-se para não perturbar os filhotes, que com cinco semanas possuíam pêlos brancos agitando-se irriquietamente no ninho. Depois de quase um dia inteiro de malabarismos a 20 m do chão conseguimos documentar mais uma fase do desenvolvimento dos filhotes.



Um dia na vida em família

A vida íntima do tuiuiú segue uma rotina que faz justiça à sua fama de ave solitária. O casal procria isoladamente, buscando uma grande árvore em meio a um alagado ou às margens de um rio para elegê-la como alicerce do ninho. Os jaburus devem acreditar que seu trabalho não deva ser desperdiçado pois utilizam a mesma estrutura anos a fio desde que ela ofereça segurança.

Após um conturbado e matraqueado namoro, a fêmea inicia o ritual da postura. Com o ninho devidamente arrumado, ela põe em média três ovos brancos, que pesam cerca de 180 g cada um. Não é raro encontrar quatro ou cinco ovos. Neste particular, o nosso casal da fazenda Milagre mostrou-se bastante “responsável”, pois em 1984 sua postura foi de cinco ovos, dos quais quatro eclodiram. No ano subseqüente mantiveram uma performance semelhante: de quatro ovos, nasceram três belos filhotes.

Mas o trabalho do casal não está acabado. É hora da incubação destes ovos. Apesar do calor reinante no Pantanal, o choco merece todo cuidado por parte dos adultos pois é fundamental que a temperatura seja semelhante a do corpo dos pais, assim como a umidade. Se o aquecimento não permanecer em níveis adequados o ressecamento excessivo da casca dificultará bastante a eclosão dos ovos.

Este é um momento muito delicado para o sucesso da reprodução. Casais mais ariscos de tuiuiús abandonam o ninho mediante a presença de intrusos ou curiosos nas proximidades. Por outro lado, ninhos situados em locais de fácil acesso, ou pertencentes a casais que se ausentam muito, recebem visitantes indesejáveis como o gambá, ou o oportunista gavião carcará.

O casal gasta boa parte do inverno nos afazeres de incubação. Chega a hora do nascimento. É extremamente curiosa a forma tranqüila com que o par assiste ao nascimento de sua prole, em contraste com as nossas reações. Encarapitado nos galhos próximos, eu presenciei a cena diversas vezes. A calma dos pais conflitava sempre com a minha preocupação sobre o destino das espécies pantaneiras.



Uma surpresa de cara vermelha

Encontramos às margens do rio Miranda um tuiuiú que, além do pescoço inteiramente vermelho, tinha o bico e as pernas também vermelhos. Ao que tudo indica deve tratar-se de uma mutação muito próxima do albinismo, onde verifica-se a ausência do pigmento negro. Tal variação já nos tinha sido referida pelo ornitólogo Helmut Sick em espécimes que, entretanto, mantinham o bico negro, ou quando muito, com vestígios de vermelho.

O tuiuiú é dotado de um bico considerável, ostentando em seu grande pescoço nu, negro e inflável, uma mancha vermelha em forma de colar. É comum encontrarmos casais nos ninhos matraqueando com seus enormes bicos e batendo-os um contra o outro com os pescoços bastante dilatados evidenciando a mancha escarlate com movimentos da cabeça. Sick acredita que essa mancha ganha uma cor viva pelo aumento do fluxo de sangue nos vasos que a irrigam quando a ave está excitada. Dessa forma o colar vermelho deverá ter um papel importante a nível comportamental e um significado especial no namoro que antecede à cópula.

No início de agosto, o grande mar de Xaraés (nome indígena dado ao Pantanal) fica reduzido a inúmeras lagoas interiores onde o tuiuiú busca o sustento de seus filhotes. Andando de um lado para o outro, remexendo no lodo com seu enorme bico e suas longas pernas, o jaburu consegue afugentar os peixes, cobras e filhotes de jacaré que captura com pouco esforço, dado seu potente bico.

“Olhe lá o tamanho do peixe que ele pegou”, gritou Haroldo. A ave com o peixe preso pelo bico arremeteu-o de encontro a uma pedra até a morte para depois engoli-lo com facilidade.

Quando a piscosidade da lagoa permite grandes concentrações de tuiuiús, eles formam uma verdadeira frente de batalha pescando cooperativamente em linha, o que torna muito difícil a fuga das presas.

Terminado o almoço, o jaburu levanta vôo com uma decolagem um tanto desconjuntada. Seu tamanho, aliado ao considerável impulso necessário para conseguir sustentação compõe uma cena cômica. O tuiuiú ganha movimento dando passadas largas e, mesmo ao decolar, ele continua andando no ar com as pernas pensas. Visto no alto, elegante, parece outro pássaro.

Durante a vigília do ninho na fazenda do Ricardo, observei várias vezes um verdadeiro carrossel aéreo do qual participavam, além do tuiuiú, os cabeças-secas e os urubus de cabeça vermelha.

Esta ciranda deve-se ao aparecimento de colunas de convecção térmica, comuns no Pantanal. Por tratar-se de massas de ar quente em elevação, os pássaros não necessitam de batidas de asas para sustentação no ar, bastando o vôo planado para subirem em espiral cada vez mais. As aves planam horas a fio em círculos, sem uma única movimentação das asas, quase que desaparecendo do alcance de nossas vistas. Maravilhado, eu me perguntava o porquê dessas grandes aves executarem esse tipo de manobra. Os pesquisadores acreditam que as aves ascendam a elevadas alturas para localizar lagoas ricas em alimento com um gasto mínimo de energia. Os ventos permitem que elas cubram grandes distâncias sem muito esforço. Um grande número de pássaros entra nestas térmicas, plana por algum tempo e depois retorna ao local de origem. “Seria simplesmente por prazer”, eu me questionava, “ou alguma razão ainda desconhecida?”

Os tuiuiús, entretanto, quando voam em busca de alimento para seus filhos, retornam direto ao ninho após a pescaria. Ao chegarem encontram os insaciáveis filhotes a clamar por comida. Só quem observa esta cena de perto pode desconfiar da dificuldade desta atividade, pois as brigas e disputas, pelo peixe regurgitado, por parte das crias são acirradas.

Com a chegada da primavera no início de setembro, a temperatura no Pantanal já se tornava mais quente, mantendo-se por volta de 30°C ou mais. “Lá estão os tuiuiús imóveis sombreando os filhotes”, mostrei para Haroldo.

Desde o nascimento, nosso casal em observação cuidava com extrema dedicação de seus filhotes. Somente com dois meses e meio de idade os pequenos tuiuiús atingirão a fase de voar e estabelecer uma nova família, mas os mais precoces já ensaiavam suas primeiras decolagens. Nos despedimos novamente daquela simpática família, pensando no mergulho de sues filhotes rumo a um futuro incerto, atirando-se à conquista de novos horizontes.

Publicado em 01/10/2008


 
 
 
 
 
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