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EDIÇÃO 158

As noivas do Jequitinhonha (matéria na integra)

Nos rincões de Minas Gerais, mulheres artesãs transformam barro em arte

foto: André Dib/Horizonte
A artesã Zezinha, da vila de Coqueiro Campo, Turmalina (MG), montou casa e criou três filhas com o seu trabalho (Foto: André Dib/Horizonte)

Com as mãos socadas num barro escuro, a artesã modela a primeira peça do dia de trabalho. Começa cedo, logo depois do café, pelas seis horas da manhã. O olhar fixo no dedilhar da matéria bruta acompanha a maçaroca que, aos poucos, ganha forma humana. Na maior parte das vezes, de mulher – olhos grandes, brincos, cabelos compridos, seios bem postos e roupas ajeitadas sobre o corpo curvilíneo. Quem já não ouviu falar das noivas do Jequitinhonha? O artesanato produzido na região nordeste de Minas Gerais é famoso no mundo inteiro. Foi exposto até na sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova Iorque, durante a mostra Mulher Artesã Brasileira, em 2013.|

A representante da arte feita no Vale, em solo norte-americano, foi Maria José Gomes da Silva, a Zezinha. Nascida em 1968, a moradora ilustre de Coqueiro Campo, uma vilazinha pequetita, de casario baixo e ruas de uma terra rubra, é a artesã mais bem-sucedida do Estado. Suas bonecas são exibidas em vitrines ou sobre prateleiras de diversos países. “Eu recebo encomenda de tudo que é canto. Dias atrás, um colecionador me ligou. Ele queria um presépio típico daqui. Eu disse tá bom. Foi o primeiro que fiz. Um desafio”, conta.

Quem a vê garbosa, em seu vestido de chita, não imagina a sua trajetória de luta até chegar onde está. “Esse negócio de ganhar nome não foi da noite pro dia. Eu não tive oportunidade de fazer outra coisa na vida. Era pegar o que estava na minha frente. Todos diziam que eu tinha muito talento, mas demora tanto pra ter retorno que em vários momentos pensei em parar. O meu trabalho é a minha fonte de sobrevivência. Gosto do que faço. Por isso, nunca desisti. Montei casa, criei as meninas, tudo com o artesanato. Só que foi uma longa jornada”, diz. As peças produzidas pela artesã variam de R$ 250,00 a R$ 1,7 mil.

A tradição regional está na confecção de bonecas. Incontáveis. Algumas cabem na mão. Outras exigem o esforço de um forte marmanjo para serem tiradas do chão. Parte das obras foi separada para decoração. Enfeitam a casa e o jardim da família Gomes da Silva – imenso e colorido de flores e peças para todos os gostos. A ceramista pertence à segunda geração de bonequeiras do Jequitinhonha. A primeira, surgiu por volta dos anos 70, quando uma equipe técnica da Comissão de Desenvolvimento do Vale do Jequitinhonha (CODEVALE) chegou ao lugarejo. “Vieram para dar um curso de aperfeiçoamento da produção artesanal aqui no Vale. Foi assim que começou a nossa história”, afirma Zezinha.  

Potes, botijas e carqueiros (objeto para colocar planta) eram criados pelas mulheres das comunidades e vendidos nas feiras de Minas Novas, Turmalina e Capelinha. “Minha mãe e as colegas sentiram necessidade de fabricar utensílios para uso doméstico, como panelas e pratos. Aí este pessoal trouxe novas ideias. Naquele tempo, era difícil entender o significado de produto de qualidade. Então, a gente fazia uma peça com cabeça de cachorro, rabo de lagartixa, uma coisa muito misturada porque não se tinha noção.” O estoque ainda é acondicionado no galpão que a CODEVALE construiu na vila, espaço que desde a década de 80 abriga a Associação de Lavradores e Artesãos de Campo Alegre (Alaca).  

Anísia Lima de Souza Santos, 44 anos, é uma das associadas. São 56 ao todo. A artesã de Poço D’água, um povoado com aproximadamente 48 famílias, trabalha com a criação de peças desde criança. “A matéria-prima que utilizo eu compro de um moço que vende o barro para muitas pessoas”, relata. A maioria, contudo, extrai o material de um barranco, em um ponto no meio da mata, usado para essa finalidade há algumas décadas. De três em três anos, as bonequeiras promovem um mutirão para retirada de seis carrinhos cada; quantidade suficiente para o trabalho nesse período e combinada de forma espontânea entre elas. Não existe um estudo sobre o tamanho da jazida de argila que utilizam.

Embora o ofício seja reconhecido como símbolo da cultura mineira, poucas são as ceramistas que vivem apenas do artesanato. Há oito anos, Anísia é proprietária de um receptivo familiar. Sua casa acolhe cinco pessoas. “O turismo é uma forma de mostrar o nosso trabalho. Quem chega gosta, compra, divulga. Não temos apoio de quase ninguém”, comenta. Não por menos, em 2013, a Raízes Desenvolvimento Sustentável criou o roteiro Do barro à arte.

Segundo Mariana Madureira, fundadora da empresa com sede em Belo Horizonte, o turismo é um poderoso vetor de transformação social. “A modalidade contribui para a permanência das pessoas no campo.” Muitas mulheres do Jequitinhonha se dizem viúvas de maridos vivos.

Nos recônditos das Gerais, as comunidades tradicionais se espalham por um território de costumes extrativistas. Entretanto, há mais de 40 anos a monocultura do eucalipto, desenvolvida em larga escala com a finalidade de abastecer a indústria siderúrgica e de celulose, transformou radicalmente a paisagem do nordeste mineiro. Pouco restou das florestas originais. Famílias inteiras que tiravam o sustento das matas de Cerrado com a extração de frutos, flores e ervas, entre outros produtos, se viram obrigadas a mudar de hábito. A falta de acesso aos recursos naturais gerou êxodo rural.

Novos rumos
Enquanto as mulheres mantêm os roçados e confeccionam bonecas em casa, os homens partem na tentativa de fazer dinheiro. Os mais jovens migram para outros Estados atrás de melhores condições de vida. Razão pela qual a implantação do Turismo de Base Comunitária (TBC) surgiu como um contraponto relevante. O modelo de gestão se difere do convencional por incentivar a autonomia da comunidade na formulação de planos estratégicos durante a execução do projeto. Os habitantes, que disponibilizam as suas residências para os turistas, são os responsáveis pelo sucesso do empreendimento.

Entre os benefícios da iniciativa estão o pagamento imediato dos proventos ao proprietário associado e a valorização do roteiro. “Percebemos que os interessados nos pacotes já haviam tido muitas experiências com o turismo tradicional e estavam em busca de vivências mais autênticas”, esclarece Mariana. A acolhida do povo hospitaleiro é o ingrediente a mais que conquista os visitantes. Na borda do fogão a lenha, na varanda das casas, na porteira das hortas cultivadas no quintal, todo o canto é lugar para esticar a boa prosa. Os costumes e o jeito de ser dos rincões realçam a experiência dos viajantes.  “Recebo gente de todos os tipos. É uma troca muito rica. O turista é interessado. Pena que o movimento ainda é pouco”, pondera Anísia.

O pouco incentivo preocupa, mas não desanima as artesãs – vide a hora do planejamento de idas às feiras. O transporte das bonecas acarreta em uma verdadeira força-tarefa das associações. Alaca é uma delas. A outra se localiza em Coqueiro Campo e possui 43 integrantes. “De uns anos pra cá, contamos com o apoio das prefeituras (de Minas Novas e Turmalina) e do Sebrae durante o processo”, afirma Valdirene Gomes dos Santos, 31 anos, gerente da lojinha dos artesãos, aberta de segunda à sexta, das 8 às 16 horas.

O espaço oferece peças como sopeiras, moringas, fruteiras e vasos, além das bonecas produzidas por quase uma centena de ceramistas locais. “Trabalhamos de acordo com as encomendas que recebemos, mas participar das feiras é fundamental.” As obras são anualmente expostas e vendidas em mostras de diversas cidades, entre as quais Belo Horizonte, Ouro Preto, Diamantina, Tiradentes e São João del-Rei, no Estado; além de Brasília, Recife, Rio de Janeiro e São Paulo.

Mesmo com a permanência das mulheres na região, o sistema agroextrativista de arraiais situados em municípios como Turmalina, Minas Novas, Itamarandiba e Veredinha foi praticamente extinto.  Tal lacuna precisou ser preenchida. As bonequeiras apareceram no mesmo período que as empresas silvicultoras. Coincidência que resultou na manutenção da cultura das grotas, como são chamadas as beiradas de rio onde os locais, tradicionalmente, instalavam suas casas no passado. A artesã Rita Gomes Ferreira, 55 anos, conquistou a sua independência por meio da arte. “Criei meu menino sozinha com o dinheiro do meu trabalho”, conta. Hoje, é motivo de orgulho. Antigamente, de vergonha para muitas. A mulher se deu conta da importância do seu papel para o sustento da família. “Compreendemos que éramos artistas, que tínhamos algo de especial para deixar pros nossos filhos”, afirma.

Foram estas mulheres que recuperaram a dignidade de uma população encurralada pelo projeto desenvolvimentista em vigor. “Estamos entrando na terceira geração de artesãs do Jequitinhonha. A primeira criava peças utilitárias. A segunda as produz para ornamentação. E a terceira traz consigo a capacidade de ir além”, comemora. No Jequitinhonha, são elas, as bonequeiras, que dão forma ao futuro. Forma esta que modelam com as próprias mãos.

Publicado em 28/09/2015


 
 
 
 
 
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