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Lucille fala sobre sua experiência com os Expedicionários

A fotógrafa Lucille Kanzawa contou, exclusivamente, para a equipe da Horizonte Geográfico como foi a sua experiência, junto aos Expedicionários da Saúde, na Amazônia.

foto: Lucille Kanzawa
Foto: Lucille Kanzawa


Horizonte Geográfico: Como foi a experiência de participar dessa missão com os expedicionários na Amazônia?
Lucille Kanzawa: Sendo filha de médico, sempre nutri uma grande admiração por este profissional. Por isso, na minha infância, sonhava em seguir seus passos e um dia trabalhar como voluntária em organizações como a Cruz Vermelha ou o Projeto Rondon. Meu espírito aventureiro me conduziu para outros caminhos e passei uma boa parte de minha vida viajando pelo mundo afora. Acabei me dedicando à fotografia e em 2010 publiquei o livro YUBA, em homenagem ao meu pai por seus gestos humanitários.
Uma médica oftalmologista, que já havia acompanhado os Expedicionários da Saúde, conheceu meu trabalho através deste livro e me indicou à ONG.
Minha função como fotógrafa foi documentar o dia-a-dia do grupo para que o material fosse apresentado aos apoiadores e às empresas que doaram equipamentos e remédios utilizados nos tratamentos.  
Acompanhar um mutirão de voluntários se mobilizando para cuidar de pessoas com difícil acesso à saúde, ver de perto o inimaginável, ficar uma semana desconectada, sem telefone nem internet, em meio a uma natureza exuberante, tudo isso foi um grande privilégio. E, de certa forma, participar dessa missão foi um sonho de criança realizado.


foto: Lucille Kanzawa
Foto: Lucille Kanzawa


HG: O que de mais inusitado aconteceu durante seu período de viagem?
LK: Um grande imprevisto aconteceu na ida, descendo o rio Solimões.
Nossa viagem começou em Campinas, num confortável avião da Embraer, fornecido pela Força Aérea Brasileira. Chegando em Tabatinga (AM), prosseguimos numa “voadeira” (lancha) para Santa Inês, aldeia onde iríamos nos instalar. Quase três horas depois, fomos surpreendidos por uma pane no motor que nos deixou à deriva.
Já no final da tarde conseguimos aportar em Feijoal, uma comunidade indígena ticuna. Sem estrutura para receber visitantes, fomos acomodados numa escola onde, por um problema técnico, a água havia acabado. Com nossa invasão, as aulas noturnas foram interrompidas e tudo teve que ser improvisado. Uns tomaram banho usando copos e garrafas. Os mais corajosos enfrentaram a escuridão e preferiram o rio. O jantar foi preparado pelos próprios expedicionários com o que encontraram nos pequenos armazéns e servido no refeitório dos alunos. As salas de aula transformaram-se em quartos por uma noite, com direito a ar condicionado.
Para os nativos, fomos uma verdadeira atração e o entardecer nos presenteou com algumas das mais belas cenas que vi no rio Solimões.
Pela manhã bem cedo, uma nova lancha nos aguardava e uma corrente humana se formou para o carregamento das bagagens.
E assim foi nossa primeira prova de adaptação e de trabalho em equipe nesta expedição.

foto: Lucille Kanzawa
Foto: Lucille Kanzawa


HG: Ficar nos alojamentos, compartilhar a comida racionada, fazer deslocamentos: a rotina te exigiu algum preparo físico?
LK: Há sempre uma reunião preparatória antes de cada expedição com palestras de orientação e informações sobre a etnia indígena a ser cuidada, mas nenhum preparo físico especial.
Quem participa de uma expedição sabe que tem que estar disposto a ficar sem conforto, enfrentar um calor inclemente, dormir em barracas individuais, dividir o banheiro com dezenas de pessoas e tomar banho de água fria.
Nessa expedição tivemos duas grandes tendas extras fornecidas pela Defesa Civil e eu preferi ficar numa delas com mais quatro pessoas.
A vacina contra a febre amarela é obrigatória e naturalmente é preciso um cuidado especial em relação ao mosquito da malária e animais peçonhentos.
A comida era racionada, mas suficiente. No começo alguns exageraram esquecendo-se dos que ainda trabalhavam. A partir de então fui uma das pessoas que ficaram responsáveis pelo controle, anotando o nome de cada um que passava pelo refeitório durante as refeições.
Imprevistos podem acontecer o tempo todo numa expedição, então acho que mais do que preparo físico, uma boa estrutura emocional é fundamental num trabalho em equipe como esse.


foto: LucilleKanzawa
Foto:Lucille Kanzawa


HG: Como foi recebida pelos indígenas?
LK: A princípio, com uma certa timidez. O olhar curioso e o fato de a maioria não falar português me faziam sentir em terra estrangeira. Logo ficamos à vontade.
Vestir a camiseta dos Expedicionários facilitava o contato na área do hospital montado. Muitos achavam que eu era médica, mesmo estando sempre com uma máquina fotográfica, ao invés de um estetoscópio, pendurada no pescoço. 
Das áreas externas ao interior de suas casas, era sempre bem-vinda. Vi tartarugas na sala e cozinhas separadas do resto da casa; vi o preparo da farinha e do açaí; comi com eles no chão; vi o cacique se enfeitando para uma festa enquanto me falava sobre os clãs; vi crianças e adultos pintando o rosto com jenipapo; vi a natureza como um grande parque de diversão. Vi pureza e sabedoria no seu jeito de ser e de viver. Em cada lugar e em cada momento, uma nova experiência e um novo aprendizado. Voltei enriquecida e gratificada.

foto: Lucille Kanzawa
Foto: Lucille Kanzawa

Publicado em 08/06/2015


 
 
 
 
 
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